sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Post it




Nobres rapazes, não tenham medo de dizer o poderoso NÃO, o “bye, bye, tchau, fui”, o “sai da minha aba”, o “desencana, tô noutra”, o “au revoir”, you know? O sexo feminino não é tão frágil que não possa suportar um adeus. Elas já deram e receberam tantos, e muitos ainda virão nessa vida. Não será o seu que fará desmoronar nada além do que um dia ou dois. Um e-mail efusivo, uma ligação carinhosa, um recado esperto, nada disso significa que elas morram de amores por vocês. Elas podem, sim, “ser legais e não dar mole”. Vamos lá, não se preocupem, elas podem não estar nas suas, e, caso estiverem, entre um não e outro, haverão muitas afirmativas. Por isso, digam, digam sim um NÃO bem gostoso de se ouvir, pelo menos mostra que coragem não é um adjetivo apenas feminino.
Vamos lá, mancebos, sem melindres...
Afinal, como diria o velho Buarque:

"Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim"

[Inspirado no “A gente se vê”, de o carapuceiro]

Luiza.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quando a cabeça encosta o travesseiro

[Da série "Quando"]

O peito dói quando a cabeça deita sobre o travesseiro. É lá que borbulha o peso dos sonhos abafados, das palavras não ditas, dos planos no amanhã. Exatamente naquele lugar, voltam as lembranças das letras que o vento leva, dos sentimentos que passam desencontrados, como a lua que cresce e o sol que cai, acabando com o desejo de admirá-los juntos.

Naquela hora em que a cabeça deita e o peito sofre, se faz mil planos, se desenha novas figuras. Lá é que habita a saudade daquele velho corpo, daquela canção mais sabida, da poesia decorada, da ligação prolongada. Daquela posição é que se desenha novas calçadas, se faz prodigiosos planos e se espera o melhor de tudo e de si mesmo.

É quando o corpo parado e a mente louca, viajando, se espera o beijo na testa, o cafuné mexendo os cabelos, a música no ouvido emanada daquela voz doce que sussurra os versos açucarados. Quando o peito dói, a cabeça alcança o travesseiro e a mente viaja, você bastaria do meu lado, sendo sol e lua juntos, na dança mal ensaiada da vida.

Luiza.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Espírito

“Estou cansada”. A frase foi dita duas vezes no filme de personagens desconhecidas e ao mesmo tempo entrelaçadas. Entrelaçadas estamos todas nós, mulheres, nesse cansaço diário. Sempre acreditei que determinadas palavras têm mais força na boca feminina. Na boca vermelha de batom, na boca carnuda que pede um beijo. Na boca que treme, querendo fugir, na boca que faz bico querendo ficar.
Quando um homem diz: estou cansado, geralmente é físico. Quando é a mulher, mental. Não estou dizendo que são esses os únicos cansaços possíveis, para um e outro. Mas quando uma de nós diz: cansei, é porque cansamos mesmo.
Ando cansada dessa gente que não sabe para onde vai. Cansei de notícias que não me dizem nada. Estou farta de histórias de amores impossíveis, seja pelo sistema, pelo regime patriarcal, pela distância. Chega dessa história de “cada escolha é uma renúncia, isso é a vida” (vá se foder, Chorão).
Quero paz na minha cena.

Rosa.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Quando eles dizem: “Vamos casar...”

Não que eu tenha algo contra o casamento, pelo contrário, até aprecio a cerimônia, por mais tradicional que ela seja. Acho que reside aí alguma ideia romântica incontida, que por todas as influências externas se incorporam na pele. Além de que, não é apenas o casamento, mas o juntar-se por querer. O estar perto por gostar. Acordar todo dia ao lado de uma pessoa que você escolheu para compartilhar tudo, desde o bafo matinal até as notas musicais tiradas de ouvido no chacoalhar das cobertas.

Mas cá pra nós, está entre as coisas mais estranhas dessa vida a primeira vez que você ouve da boca de queridos amigos a palavra ca-sa-men-to. “É!!! Decidimos que é a hora. Vamos casar nos próximo verão”. “O quê????” - é a única coisa que você consegue expressar, assombro e surpresa, além de um tremendo sentimento de que a vida te atropela, como naqueles instantes em que você está atravessando a rua distraída e de repente ouve uma estrondosa buzina, em um nervoso sinal de alerta. É, amigo, mais um pouco e você já estará estrelando uma comédia à Solteirões Bom de Bico.

O meu primeiro sinal de alerta veio no ano passado, quando pela primeira vez recebi um convite para ser madrinha de casamento. Sim! Que honra... O orgulho inchou o peito e espalhei aos quatro cantos a honraria do glorioso convite. Mas a ficha só caiu na hora em que eu vi o primo entrando de fraque com o sorriso de orelha a orelha admirando a nobre companheira que entrava para ir ao seu encontro. Nem dava para acreditar que aquele era o mesmo que cresceu brincando e se divertindo à custa de tardes na casa da avó com o restante da trupe de crianças unidas pelo mesmo sangue.

É, realmente eles crescem. Tá certo que ultimamente estava rodeada de amigos casais, mas não imaginava o ponto em que a maioria deles estaria se preparando para o enlace. Depois do primo veio a amiga de infância, juntando-se com outro amigo da mesma procedência. Mais tarde a amiga-irmã de escola, com quem até ontem eu trocava papéis de carta e colecionava posters do Guns´n´Roses. Até aí tudo bem, um, dois, três... Mas a lista não parava por aí, era a irmã em busca de apartamento, a outra em fase de cobrar o namorado pela atitude que não vinha, e... opa!!!! Madrinha outra vez?! “Simm, você fez parte da minha vida, não poderia ficar de fora.”

Um dos indicativos do contraditório tempo (amigo e inimigo) que passa, é a somatória de vidas da qual você já fez ou faz parte. Se de um lado vem a alegria de fazer parte de muitas delas, de outro vem a assombrosa constatação da idade. Um convite para o casamento dos melhores amigos é o sinal do encerramento de um ciclo e, consequentemente, início de outro. Esses dias atrás me convidavam para festinhas de aniversário - pão com linguiça, refrigerante e som dos Raimundos. Hoje eles chegam e vêm me dizer: “Vamos casar”...

- “Tudo bem. Só não aceito mais convite para madrinha.”


Luiza.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009


“A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.”

Neruda

Naquele ano o inverno estava demorando a passar. Mesmo terminado oficialmente, os dias continuavam fúnebres. Sentada à mesa, no escritório, ela olhava por uma fresta da janela o outro lado da rua, observando a movimentação com o olhar perdido.

Daquele pequeno vão podia ter uma noção do céu acinzentado de uma estação que começara sem vida. Do inverno, gostava do amarelo dos ipês floridos que desabrochavam antes dele acabar, e cujas flores murchas caídas coloriam e recheavam o chão. Mas queria logo o início da estação seguinte, que representava o começo de mais um ano na sua cronológica contagem de existência.

Mesmo tendo nascido dois dias antes do início, ela queria ser primavera, não inverno. Queria ser os pássaros cantando, não os bichos empoleirados protegendo-se do frio. Contudo, o que ainda não tinha percebido é que os dias haviam mudado, e as estações não estavam mais distintamente definidas. Verão e inverno se misturavam, primavera e outono começavam a ficar encabulados. Do outono tinha-se uma certeza, as folhas, apesar de tudo, continuariam a cair. O fato é que dessa nova primavera não sabia o que esperar...

Com a mão sob o queixo, pelo vão da janela, permanecia mirando firme e distraidamente a rua. Naquele momento, num olhar furtivo, avistou um botão rubro que parecia estar numa luta teimosa prestes a desabrochar. A distração acabou de súbito. Foi então que se deu conta de que a primavera havia chegado, mesmo não parecendo.

L.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

As velharias da vida

Eu gosto de coisa velha: música velha, roupa velha, chinelo gasto, sapato furado, tênis rasgado e - com certa nostalgia por um passado que não volta mais - aprecio os amores antigos!

Este gosto pelo passado cresceu comigo. Quando eu era adolescente, na oitava série (meu Deus, isso já faz dez anos!), fizemos um amigo secreto. As quatro turmas de oitava do colégio participariam. Na sala da coordenação, pusemos uma lista de presentes - mais de 50 pessoas participando da brincadeira e outras 100 que queriam apenas saber dos presentes. Minhas amigas pediram brincos, perfumes, blusinhas. Eu também curtia estas coisas, mas pedi um CD do Bee Gees. Lembro de todos rindo e apontando: “Aquela é a menina do CD! Nem meu vô ouve aquilo! (risos)”. Mesmo pedindo, ganhei uma agenda do Mickey, a qual custava mais que o CD!

Eu não devo ser a única que passou por isso. Houve uma época em que eu separava um velho tamanco para doar. O colocava numa sacola e a deixava esquecida, até que estivesse cheia o suficiente para valer a visita até o abrigo. Mas ela nunca enchia, pois quando eu vestia aquela velha blusinha, que sempre combinou com aquele tamanco, eu o tirava novamente, com a velha intenção: “só mais uma vez”. Ele arrebentou, levei ao sapateiro. Estragou de novo, em outro lugar, levei novamente. Só desisti quando percebi que a soma do sapateiro já me permitiria comprar outro sapato. Fato este somado à insistência da minha mãe que sempre rogava a praga: “Este sapato de novo? Um dia ele vai arrebentar no meio dos outros e você vai passar vergonha!”.

Não pense você que não vivo o presente. Compro sapatos novos sempre a pouca grana me permite! Não posso dizer que aprecio, mas me divirto dançando um sertanejo e canto axé. Já fui ao show de Ivete Sangalo, mas ainda sonho em assistir a um especial de Roberto Carlos na platéia e não pela Globo. Leio os best sellers e até me encanto por eles, mas não resisto a Machado de Assis. Adoro os filmes de Spielberg, mas tiro o chapéu para Trufaut e Chaplin.

De vez em sempre me pego a pensar nos amores que não vivi, naqueles dos quais eu tenho saudades e no que poderíamos ser se o passado fosse presente. Mas nem por isso deixo de olhar para os lados!

E você tem saudade do que?

Um brinde ao saudosismo, ao som de How deep is your Love, e vamos em frente!

Da ausente, Terezinha

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Modern Times

Ser pelo ter. Buscar para buscar. Encontrar possibilidades. Não realizar nenhuma pela vontade de encontrar uma melhor, modern times. Certa vez um professor contrapôs duas músicas num exercício de entendimento, durante uma aula em que explicava sobre linhas de pensamento que pretendem explicar a sociedade moderna.

À época acho que havia entendido o que ele tentou repassar através de seus ensinamentos. Hoje, depois de fatos ocorridos, volto a elas. “Cotidiano”, do Chico Buarque e “Você não entende nada”, do Caetano Veloso. Presente nas duas músicas, dizia ele, estão o idealismo e o materialismo. A primeira realizada apenas no mundo das idéias, onde o sujeito não sofre interferência do meio, objeto. A segunda onde sujeito e objeto possuem interface, onde um, condicionado pelo outro, é modificado e também modifica.

Não lembro exatamente como foi a comparação, mas acho que agora já arrisco fazê-la sozinha, pelo menos a minha.

As músicas chegaram ao pensamento numa noite quando, depois de ouvir, os ouvidos permitiram enxergar. Ouvi de bocas sábias o que no fundo já se sabia, mas o tempo faz a gente perceber de forma mais clara. Nessa, a boca amiga lembrou que, assim como tudo, o amor também é condicionado pela relações materiais e que esquecer disso é cair num idealismo sem fim, idealizando relações humanas impossíveis e irreais, vendo e esperando do outro coisas que não existem. Porque no mundo real, no dia após o outro, é que se vive, se trabalha, se ama.

Dá até vontade de largar tudo como o Caetano, mas é no cotiano do Chico que as coisas acontecem. Alguns, que não entendem nada, dirão que sendo assim não dá pra sonhar. Não, não é esse o fato. Mas aprender que a vida se constrói a cada dia e idealizar coisas melhores é necessário, mas saber dos limites a nossa volta nos torna capazes de sermos os donos do próprio destino.

Não quero fugir como o Caetano, quero a materialidade da vida, mesmo sendo dura. Não quero me embrenhar na modernidade líquida (texto anterior), numa busca sem fim pelo gozo. Não quero me apegar às possibilidades, quase sempre intangíveis, quero ser de poucas, mas certeiras vivências. Isso não quer dizer que esses tempos não tragam várias estradas, mas saber o que se quer construir já é um bom começo.

Não quero tacar fogo no apartamento, porque não importa para onde você vá, não são as pessoas, não são os lugares, somos nós e a maneira como compreendemos o mundo. Os problemas não se resolvem por transferência e as coisas não mudam com mala arrumada.

Ao final, “[...] encarar o sofrimento como aprendizado, ir contra essa tendência de relações superficiais, não quer dizer que seja um caminho fácil, mas é o que eu quero trilhar.”, disse a boca sabida. “Eu também”, respondi sutilmente.

Luiza

* Colaboração especial de uma boca sabida, hoje à la cubana, amanhã, espero, mais próximo.



(não achei nenhum vídeo do Caetano cantando a sua)